domingo, maio 07, 2006

Entrevista com Bricmont

Aqui está uma entrevista que fiz com o físico Jean Bricmontda Universidade de Louvain, na Bélgica, para a matéria sobre o ensino de astrologia em universidades brasileiras, publicada no Valor e republicada aqui neste blog. Bricmont é co-autor do livro Imposturas Intelectuais - o Abuso da Ciência pelos Filósofos pós-Modernos. (Desculpem-me os que não lêem inglês, mas estou sem paciência para traduzir)


Recently, Universtity of Brasília (UnB) created a course in astrology. UnB has even a group of studies on paranormal fenomena. What do you think about that?
Bricmont: I think it is a bad decision- one can of course study paranormal phenomena, but it has to be done scientifically. As far as I know, the scientific studies of those phenomena have yield negative results.

Is astrology a science?
Bricmont: no - insofar as no empirical argument in favour of its claims has ever been given, as far as I know.

Is it possible to define what science is?
Bricmont: More or less, yes. It is not necessarily easy to make a sharp distinction between science and non science, but it is rather easy to make such a distinction when the difference is big. To make a comparison, it is not possible, except by convention, to say exactly where the border between Asia andEurope is. But if you go from Paris to Tokyo, you can tell which cityis in Europe and which one is in Asia. To turn to astrology, there is a simple test: ask their defenders to make a reasonably large sample of predictions, in a controlled experiment, that do better than chance. Scientist do that all the time. If they cannot pass this test, why should we believe them? And if we have no reason to believe them, why should we teach what they say?

Is there a limit to what can be taught in the universities?
Bricmont: of course - there simply isn't the time or the money to teach everything - every possible superstition that has ever existed? In general, it is even impossible to teach all important aspects of science, because of lack of time or of money. So, if only for practical reasons, a selection of topics must be made.

How can this limit be stablished and by whom?
Bricmont: Ultimately, by elected representatives (say, the parlament). But it is wise for those elected people to rely on the advise of experts. Which experts? Well, those who are able to pass the test I mentioned above, for example. Otherwise, anybody can call itself an expert. Of course there is a problem here - it may be the case that the population wants and votes for, people who don't want to listen to "my"experts. This is of course more or less what happens with creationist politicians in the US, for example. I would expect that, in the long run, the population would suffer from those choices, but this is not obvious and it is not guaranteed that the population will realize the connection between its beliefs and their consequences. To that problem,I have no satisfactory answer.

In what level can a course on literature be diferent from astrology - I mean in terms of how "scientific" are those both courses?
Bricmont: Well, a course on literature can be scientific in some sense, I mean, stating certain facts right, for example. Then there is the problem of interpretation, commentary etc. I don't think the latter are completely arbitrary, but, of course, it is difficult to say what the "correct" commentaries on a piece of fiction are. Nevertheless, you can give evidence for your claims, even if it is not conclusive. If, on the other hand, you speak of your tastes, then of course, we move in the domain of the subjective. I don't think the tastes of the professor should be the main point of a course on literature. But it is very different from astrology- the latter makes empirical claims about the world that are not supported by evidence. People who make commentaries on a piece of fiction usually give evidence for their claims, or, if they express their tastes, usually admit that other opposite tastes are equally acceptable. But, when one makes empirical claims about the world, one cannot accept that both the claim and its opposite are equally valid - e.g. astrologers do not admit that the proposition "astrology is an illusion" is as valid as their claims.

Pushing this discussion ahead, how scientific are disciplines like> administration, economics and psychology, for instance - all taught in undergraduate and graduate levels?
Bricmont: some of them not much; it is not as clear cut a case as astrology; I mean some parts of economics can be scientific: some maths, some history or descriptions (I tend to believe that claims made by economists go far beyond what is supported by evidence, but that does not mean that more moderate claims could not be scientific); same for psychology (but here a problem is that a lot of psychology taught in universities is simply psychoanalysis).

sábado, maio 06, 2006

A culpa é da racionalidade científica


Transcrevo entrevista publicada pelo Valor com a filósofa peti(auti)sta Marilena Chauí, na qual ela desnuda sua aversão pela racionalidade científica. Tirem suas próprias conclusões. (Os grifos são meus)

Valor: A senhora diz no livro "Cultura e Democracia - O Discurso Competente e Outras Falas" que hoje se vive a era da "sociedade do conhecimento", na qual os que possuem determinados conhecimentos têm o direito natural de "mandar e comandar os demais em todas as esferas da vida social".
Marilena Chauí: Um pequeno esclarecimento. A sociedade do conhecimento é a nova forma da ideologia da competência. Esta surgiu com a chamada "organização científica" do trabalho industrial, ou "gerência científica", e se espalhou para todas esferas da existência social. É ele que afirma que os que possuem conhecimentos técnicos e científicos têm o direito de mandar e comandar, enquanto os outros, despojados de tais conhecimentos, têm o dever de obedecer. Essa ideologia divide a sociedade em especialistas competentes e sujeitos sociais, políticos e culturais incompetentes. É uma forma de poder e de dominação que se intensifica e se potencializa na nova forma do capital, isto é, quando a ciência se torna força produtiva e a informação significa poder. Não tem nada a ver com mérito ou meritocracia, mas com exercício da dominação.

Valor: Vem daí sua força despolitizadora?
Marilena: A ideologia da competência ou da sociedade do conhecimento tem uma força despolitizadora imensa, pois a política passa a ser considerada uma questão de conhecimento técnico - a política se torna uma técnica - que exclui todos os que não o possuem. Os cidadãos são reduzidos à condição de votantes, apenas. Essa ideologia é, por excelência, antidemocrática, pois, desde seu nascimento na Grécia, a democracia sempre se fundou na idéia de competência política dos cidadãos para discutir, deliberar e decidir politicamente. Somente depois de tomada uma decisão pelos cidadãos, os dirigentes recorriam aos técnicos, cuja competência específica era empregada para concretizar a decisão tomada pelos cidadãos. Hoje, a ideologia da competência e da sociedade do conhecimento produz uma inversão: os técnicos decidem e os cidadãos acatam. É isso a despolitização da sociedade. No livro, ofereço vários exemplos de como os operários desmoralizavam a "gerência científica", que lhes dava ordens e regras para a fabricação de um produto. Em muitas ocasiões, os trabalhadores realizaram a chamada "greve do zelo", que consistia em fabricar o produto seguindo exatamente as ordens e normas recebidas dos técnicos competentes, sem que o saber real ou a competência real dos trabalhadores fossem empregados na fabricação. O resultado era claro: os produtos eram imprestáveis.

Valor: Como vê a imagem do presidente Lula nessa conjuntura, uma vez que ele é a negação dessa lógica meritocrática, pelo menos em termos de educação formal?
Marilena: No caso do Brasil, a ideologia da competência e da sociedade do conhecimento, além de exercício de poder, servem para legitimar um traço marcante de nossa sociedade, qual seja, o autoritarismo social, que faz com que todas as relações sociais - na família, no trabalho, na escola, no hospital, na rua, no entretenimento etc. - tenham a forma de uma relação entre um superior e um inferior e assumam a forma da cumplicidade quando os sujeitos se consideram iguais, e da repressão, quando desiguais. O autoritarismo social aparece no racismo, no machismo e, evidentemente, no preconceito de classe. Se a democracia é uma forma social de ampliação e criação de direitos, isso é muito difícil no Brasil, por que o autoritarismo social, o preconceito de classe e a desigualdade econômica dividem nossa sociedade em dois pólos: o do privilégio, que, por ser privilégio, não pode ser um direito de todos os cidadãos, e o da carência, que, por ser a ausência de direitos, não pode ser um direito de todos os cidadãos. Deixo por sua conta e por conta dos leitores avaliar como a ideologia da competência, a ideologia da sociedade do conhecimento, o autoritarismo social e a possibilidade de instituir uma sociedade democrática podem ser analisados com a presença do presidente Lula na cena política brasileira.

Valor: Num artigo publicado por ocasião do caso Waldomiro, na "Folha de S.Paulo", a senhora escreveu que o episódio deveria servir como gancho para propostas de mudanças. Mas a mídia não teria preocupação com a ética na política nem com a reforma política. Sua motivação seria a disputa simbólica para destituir o PT do lugar que ocupava. Essa disputa ainda vale para explicar os escândalos que vieram depois?
Marilena: Enquanto não se fizer uma reforma política, todos os governos tenderão a sucumbir aos mesmos problemas. Não vou repetir aqui esses problemas, pois já escrevi sobre isso em várias ocasiões e em vários lugares. Em resumo, direi o seguinte: no fim da ditadura, quando o MDB poderia superar a Arena com maioria parlamentar, o problema foi resolvido conseguindo-se novos parlamentares arenistas, entre outros meios, pela transformação dos territórios em Estados e pela criação de novos Estados com o desmembramento de alguns existentes. A seguir, o sistema partidário e eleitoral levou à distorção da representação, tanto pela super-representação dos Estados recém-criados como pela proliferação de partidos artificiais ou de aluguel. O resultado tem sido a impossibilidade de o partido vitorioso no Executivo conseguir eleger maioria parlamentar, ficando às voltas com o chamado "problema da governabilidade". Este acaba levando ou a alianças partidárias artificiais, que desagradam a todos os representados, ou à distorção de uma prática própria da democracia parlamentar, isto é, a negociação entre Executivo e Legislativo ("concedo x desde que você conceda y"). Passa-se da negociação à negociata.

Valor: E o financiamento das campanhas?
Marilena: O financiamento privado das campanhas eleitorais acarreta pelo menos três graves improbidades públicas. A primeira é a desinformação social, pois candidatos e partidos publicam gastos que não correspondem à realidade. A segunda é o segredo, pois candidatos e partidos, à margem de seus programas e compromissos públicos, se comprometem com interesses privados dos financiadores, favorecendo os economicamente poderosos às custas dos direitos das outras classes sociais. A terceira é a possibilidade de enriquecimento ilícito dos que se apropriam privadamente dos fundos de campanha. É evidente a necessidade da reforma política e o governo deveria tê-la proposto logo no início, quando tinha poder e prestígio para dirigi-la. Na sua pergunta anterior, o problema aparece: você diz "ética na política". Penso que devemos dizer ética "da" política. Falar em ética "na" política leva a supor que deve haver uma transferência das normas e dos valores da vida privada para a esfera pública. Dizer ética "da" política significa dizer que há normas e valores que pertencem propriamente ao espaço público e que as instituições políticas e públicas devem exprimir essas normas e esses valores.


Valor: A senhora poderia dar um exemplo?
Marilena: O primeiro pensador que analisou com clareza meridiana a diferença entre o privado e o público foi o filósofo Aristóteles, quando distinguiu o poder doméstico do chefe de família e o poder político dos cidadãos. O primeiro se baseia na vontade pessoal e arbitrária do chefe - e a gente só pode torcer para que ele seja ético e virtuoso e não pratique violências. O segundo se baseia em dois princípios ou valores éticos públicos: a justiça do partilhável e a justiça do participável. A vida política é instituída tendo como finalidade instituir a justiça, transformando os indivíduos privados em cidadãos. A justiça consiste em tornar iguais os desiguais. A justiça do partilhável se refere à distribuição dos bens e das riquezas, pois uma política que fomenta e produz a desigualdade é injusta e, portanto, imoral. A justiça do participável se refere ao que não pode ser dividido ou partilhado, mas somente participado: trata-se do poder político, que deve ser igualmente participado por todos os cidadãos. Uma política que não assegure a participação é injusta e, portanto, imoral. Trata-se, pois, de encontrar e estabelecer instituições políticas e sociais que sejam capazes de assegurar a justiça. Como você vê, não há referência a qualidades pessoais dos governantes, às suas virtudes ou ao seus vícios, não se fala em ética na política e sim numa ética "da" política, numa ética pública, que possui valores e normas éticas públicos e instituições públicas para realizá-los. Do ponto de vista de uma ética da política, a história da política brasileira é a história da falta de ética.

Valor: É a história do PT?
Marilena: O PT surgiu vinculado a dois valores: a dignidade dos trabalhadores - portanto, a cidadania ou a participação no poder político ou justiça do participável; e a justiça - portanto, a distribuição da renda, em vista da igualdade, isto é, a justiça do partilhável. Há, pois, uma ética da política e o PT nasceu defendendo uma ética da política. Por isso mesmo, a perplexidade e o inconformismo dos petistas com os escândalos. Quanto aos escândalos, tenho algumas observações. Do lado institucional, as falhas do sistema político, tanto o partidário como o eleitoral. Do lado do PT, o que eu já disse sobre as mudanças ocorridas no partido, com a centralização, a burocratização e o predomínio da questão eleitoral sobre todas as outras, ou seja, a mudança de partido de quadros a partido de políticos profissionais com aceitação das regras do jogo; e, com a eleição de Lula, quadros importantes foram para o governo e os substitutos não souberam ter o controle sobre as finanças partidárias. Mas é importante deixar claro o que permitiu que a crise fosse desencadeada e o que a fez ser iniciada.

Valor: O que a desencadeou?
Marilena: O enfraquecimento do governo com a perda da presidência da Câmara. Tanto é assim que todas as tentativas para montar CPIs durante os governos de FHC foram bloqueadas pela presidência da Câmara - e olha que, em matéria de escândalos, não havia pouco, desde o que se passou com as privatizações até a compra de votos para aprovar a emenda da reeleição. Mas, o que fez a crise ser iniciada foi a conjugação de vários fatores: o início de ações da PF, que iriam atingir gente graúda com poder de fogo para impedir isso; a possibilidade de reeleição de Lula; a possibilidade de favoritismo do PT nas eleições estaduais; disputas - sobretudo entre PSDB e PMDB - pela privatização dos Correios; a futura perda de US$ 15 bilhões pelo Opportunity, que abastecia Marcos Valério desde os tempos do PSDB, com as mudanças que seriam feitas nos fundos de pensão. A finalidade também era clara: um golpe branco ou o impeachment do presidente da República. Tanto era assim que, logo no início da crise, vários tucanos participaram de programas de televisão e rádio anunciando que já tinham formado um "governo de transição", e propunham a antecipação das eleições presidenciais. Como você sabe, todas essas questões vêm sendo discutidas nos fóruns do PT, suscitaram o movimento de refundação partidária e levarão, a médio prazo, ao desmantelamento da estrutura burocrática e centralizada.

Valor: Os movimentos sociais tiveram com o PT um forte canal de comunicação e uma ligação histórica. Com a chegada do partido ao poder, esses movimentos não perderam sua força, uma vez que não quiseram romper com sua base histórica e não apresentaram alternativas para sua sobrevivência?
Marilena: Sob os efeitos do neoliberalismo, houve um refluxo mundial dos movimentos sociais e populares, que só muito lentamente estão retomando fôlego, buscando novas formas de organização e de expressão. Por isso, a importância do Fórum Social Mundial. Agora, os movimentos sociais e populares no Brasil formam o grande sujeito político dos anos 1980 e 90, mas sofreram também os efeitos da nova forma de acumulação do capital e também tiveram que buscar novas formas de organização e de expressão. No entanto, convém lembrar que o MST, por exemplo, continuou e continua firme e não se atrelou ao governo. No caso das universidades, que é o que eu conheço melhor, a Andes, a Andifes, a UNE, as associações estaduais de professores e de estudantes continuam firmes e não se atrelaram ao governo. Com relação aos movimentos sociais e populares ligados ao PT, o enfraquecimento partidário dos movimentos - e não sua posição política - decorreu não só da situação que atinge todos os movimentos no mundo inteiro, mas também de uma causa particular, que nada tem a ver com a chegada do partido ao poder. Essa causa foi a centralização e a burocratização das direções partidárias e o papel predominante dos políticos profissionais no partido, desmantelando a forte presença dos movimentos nas decisões partidárias.

Valor: A senhora considera que os programas sociais do governo, como o Bolsa-Família, que pode se tornar base para a reeleição de Lula em 2006, é um trunfo importante? Seriam esses programas uma resposta ao que a senhora chama de "sociedade de bem-estar", na qual o Estado faz parcerias com empresas e ONGs para a criação de empregos - desobrigando-se do salário-desemprego- e para projetos de educação e saúde, excluindo a idéia entre justiça social e igualdade socieconômica?
Marilena: A política brasileira é muito instável. O sistema partidário e o sistema eleitoral - que precisariam ter tido uma reforma profunda - favorecem indefinições, oscilações muito rápidas. Por isso, acho muito cedo para qualquer avaliação das próximas eleições. Não falei de "sociedade do bem-estar" e sim do Estado do Bem-Estar Social, que é o Estado da social-democracia européia. Também não falei de parcerias com empresas e ONGs e de desobrigação do salário-desemprego. Isso caracteriza a chamada "terceira via", proposta pelo Partido Trabalhista Inglês, com Blair. Falei do Estado do Bem-Estar Social como uma política referente à direção dada pelo Estado aos fundos públicos, uma parte dirigida à reprodução da força de trabalho, por meio do salário indireto ou dos direitos sociais, e outra dirigida a subsídios e investimentos do capital. Não está em curso, no governo Lula, nem a forma clássica da social-democracia, nem a terceira via. Há alguns estudos sendo feitos, muito interessantes, sobre os efeitos sociais, econômicos e culturais do Bolsa-Família em algumas regiões do país, particularmente quanto à nova situação das mulheres. Vale a pena ver isso. Quanto à educação, que eu conheço melhor, está longe da social-democracia, da terceira via e do neoliberalismo. O Fundeb, o Prouni, o Proeja, o texto da reforma universitária elaborado pelo MEC a partir de discussões e debates nacionais com todas as entidades, o processo de interiorização das universidades públicas - com a criação de novas universidades federais -, as verbas destinadas às escolas públicas em todos os níveis, a abertura de concursos públicos para ampliação da rede de ensino superior etc., assinalam uma política de cidadania e, sobretudo, de controle público sobre as empresas privadas de ensino em todos os níveis.

Valor: O discurso de esquerda pode continuar prometendo a criação de emprego, mesmo diante de um novo capitalismo, que não tem mais a capacidade de gerar emprego, e no qual o trabalhador não é mais uma categoria social?
Marilena: Não se trata de prometer emprego e sim de lutar por ele. Não se trata de lutar por emprego na forma atual da acumulação do capital, pois essa forma opera com desemprego estrutural. Portanto, não se trata de lutar por emprego, sem considerações, e sim de compreender as novas formas assumidas pelo trabalho a partir do momento em que o capital, subsidiado pelo Estado, dá um salto tecnológico sem precedentes e modifica a organização social do trabalho. Menciono, assim, três efeitos. Primeiro, a rotatividade e a obsolescência vertiginosa da força de trabalho. Segundo, a dispersão e a fragmentação da produção, alterando as relações entre os trabalhadores e o local de trabalho - relação que foi decisiva no período industrial para a consciência de classe , organização sindical e lutas populares. Por fim, a mudança da inserção do trabalho intelectual no modo de produção, uma vez que a ciência se tornou força produtiva direta. É preciso distinguir a luta pelo trabalho, no longo prazo, e a luta pelo emprego, no curto prazo.

Valor: Como se dá essa diferença?
Marilena: A luta pelo trabalho, no longo prazo, não pode ser separada da questão salarial e da jornada de trabalho, nem dos direitos sociais - portanto, da direção dada aos fundos públicos para assegurar tais direitos -, nem da discussão da exploração do trabalho e do trabalho alienado. No caso do Brasil, país de capitalismo periférico, a questão do trabalho envolve todos os aspectos acima mencionados, mas, no curto prazo, envolve ainda três outros. Primeiro, as políticas sociais de distribuição da renda, como a reforma tributária; as políticas econômicas de justiça social, como a reforma agrária; o subsídio estatal à micro-empresa; a política educacional de garantia dos direitos da infância e da adolescência, como condições econômicas para assegurar a escolaridade de boa qualidade, a manutenção de crianças e jovens na escola e a reforma do ensino básico e do ensino superior. Em seguida, o emprego como forma de transferência de renda para diminuição das desigualdades sociais. Um terceiro aspecto é o emprego como forma de inserção social, que leve a uma luta por novas condições do trabalho.

Valor: Mas qual é o espaço do trabalhador no contexto contemporâneo e das organizações que dessa classe emanam, como os sindicatos?
Marilena: Quando Milton Friedman e Friedrich Hayek propuseram o que ficou conhecido como neoliberalismo, a justificativa dada foi a atribuição do déficit fiscal ao Estado do Bem-Estar Social, que teria sido implantado, graças ao poder dos trabalhadores e dos sindicatos, na social-democracia. Propuseram, portanto, uma política econômica que quebrasse a força dos sindicatos e das organizações dos trabalhadores. Por outro lado, como se sabe, o Estado do Bem-Estar se caracterizava por dar duas direções aos fundos públicos, uma parte dirigida ao capital e outra para os direitos sociais, como educação, saúde, moradia, férias, salário-desemprego, transporte etc., criando o salário indireto. Essa forma do salário desatou o laço que prendia o capital ao salário e que determinava o ritmo e o grau do desenvolvimento tecnológico. O salário indireto, que desatou o laço entre capital e salário, teve dois efeitos. Primeiro, o dinheiro deixou de ser o valor que servia para a equivalência de mercadoria e se tornou moeda, donde o monetarismo e o predomínio do capital financeiro. E depois, permitiu um desenvolvimento tecnológico sem precedentes na história. Mas o capital não tinha liquidez para tanto e precisou da quase totalidade dos fundos públicos ou investimentos estatais. O que só foi possível abolindo o Estado do Bem-Estar e introduzindo a forma neoliberal da economia e da política. Na economia, introduziu a desregulação e o fim da forma industrial fordista, isto é, a economia pós-industrial. Na política, introduziu o corte dos fundos públicos destinados aos direitos sociais, dirigindo-os ao capital. Juntas, economia e política produziram o encolhimento do espaço público dos direitos e o alargamento do espaço privado dos interesses de mercado. As novas tecnologias produziram sobre a organização do trabalho os efeitos que já mencionei e quebraram a força e o significado dos sindicatos. E não só deles, mas também afetou os movimentos sociais e populares de lutas por direitos.

Valor: Quais são as alternativas?
Marilena: Como não sou vanguardista e sou crítica da idéia de "consciência vinda de fora", segundo a qual os intelectuais de vanguarda trazem aos trabalhadores a "boa e correta consciência" e a "boa e correta organização", recuso-me a dizer o que os trabalhadores devem fazer para se organizar nessa nova forma do capital. O MST, os jovens franceses filhos de imigrantes, os jovens franceses contrários à lei do emprego proposta pelo governo francês, os movimentos sociais e populares que derrubaram Berlusconi na Itália, e muitos outros fatos que poderiam ser enumerados, indicam que há uma busca de formas de organização e de luta em curso.

Valor: Ainda é possível pensar a esquerda a partir das teorias marxistas, com uma classe trabalhadora tão enfraquecida?
Marilena: Você pode notar que tudo o que eu disse até agora é marxista. Portanto, o marxismo não precisa de uma classe trabalhadora fortalecida para analisar a realidade. Ao contrário. Historicamente, as análises marxistas visaram fortalecer movimentos operários em refluxo ou ainda não constituídos. É preciso compreender um aspecto da análise de Marx que, em geral, as pessoas desconsideram: Marx afirmou que, no modo de produção capitalista, a burguesia, ou qualquer forma que assuma a classe dominante, e o proletariado, ou qualquer forma que assuma a classe trabalhadora, não são os sujeitos históricos, pois o sujeito histórico é o capital, do qual as classes sociais são suportes. Portanto, a análise marxista se interessa pela ação do sujeito capital e pelos efeitos desse sujeito sobre os seus suportes sociais. Procurei, de maneira muito breve e sumária, assinalar a forma atual assumida pelo sujeito histórico capital. Quanto aos intelectuais de esquerda e aos intelectuais progressistas brasileiros, são eles que têm feito as análises sobre a gênese e a forma atual do capital. São eles que têm feito a crítica da ideologia pós-moderna. São eles que têm feito a crítica da ideologia da "sociedade do conhecimento", analisando as novas formas do poder do capital quando a ciência se torna força produtiva e quando as novas tecnologias, particularmente a digital e a multimídia, conduzem à oligopolização global dos centros de decisão e de poder sobre o conhecimento e a informação. São eles que estão no Fórum Social Mundial.

Valor: Voltando ao que disse agora sobre os intelectuais de esquerda diante do cenário atual. Criou-se um grande debate em torno da idéia do silêncio dos intelectuais. A tese era que progressistas teriam perdido a capacidade de julgar.
Marilena: Quanto ao silêncio dos intelectuais, o curso organizado pelo Adauto Novaes, para comemorar 20 anos de cursos organizados por ele, abertos ao público brasileiro, teve como título "O Silêncio dos Intelectuais". Esse título foi decidido por uma grupo de discussão em abril de 2004 - portanto, sem qualquer relação com a crise política que iria acontecer no Brasil em 2005. Eu fiz a conferência de abertura e meu tema foi uma pergunta: O intelectual engajado estaria desaparecendo? Tratei do silêncio dos intelectuais a partir da transformação da ciência em força produtiva, da oligopolização e centralização do conhecimento e da informação; da perda do espaço de pesquisa e de reflexão crítica pelas universidades, reduzidas à escolarização; da ideologia pós-moderna - que aceita a acronia e atopia ou a desaparição dos referenciais de espaço e tempo, produzida pela nova forma do capital e pelas tecnologias eletrônicas e digitais; que faz o elogio narcisista da intimidade, aceitando o encolhimento do espaço público e o alargamento do espaço privado instituído pelo neoliberalismo; que aceita o mercado fugaz e efêmero da moda como padrão para a cultura etc. Procurei mostrar também que a palavra "intelectual", introduzida por Zola, na França, no século XIX, a propósito do caso Dreyfus, significa o artista, o pensador, o professor, o escritor que falam em público. Ou seja, intelectual é aquele que fala em público em defesa de uma causa universal, fazendo a crítica dos poderes constituídos, propondo uma transgressão da ordem dada, realizando uma reflexão sobre a política e a cultura etc. Portanto, a expressão "silêncio dos intelectuais", em si mesma, é contraditória, pois quando um artista ou um pensador estão em silêncio, não são intelectuais. Como você vê, isso nada tem a ver com a crise brasileira de 2005. E, diga-se de passagem, se você pegar jornais, revistas, vídeos ou DVDs de programas de televisão, CDs de programas de entrevistas nas rádios e o que circulou diariamente na internet, a última coisa de que se pode falar, no Brasil de 2005, é de silêncio dos intelectuais. Nunca falamos tanto.

Não é um bicho-de-sete-cabeças

Por causa de leituras sobre filosofia e metodologia da economia, li no fim de semana passado a introdução e a primeira parte da Crítica da Razão Pura. Nunca lera nada de Kant e confesso que o título do livro me assustava um pouco. Adorei. Se considerarmos que se trata de texto filosófico do século XVIII, até que é bem compreensível. Nada da obscuridade dos picaretas pós-modernos. O primeiro período da introdução não poderia começar de forma mais direta: "De que todo o nosso conhecimento começa com a experiência não há dúvida alguma, pois, do contrário, por meio do que a faculdade de conhecimento deveria ser despertada para o exercício senão através de objetos que tocam nossos sentidos e em parte produzem por si próprios representações, em parte põem em movimento a atividade do nosso entendimento para compará-las, conectá-las ou separá-las e, desse modo, assimilar a matéria bruta das impressões sensíveis a um conhecimento dos objetos que se chama experiência?" Já tinha lido sobre Kant por comentadores, mas gostei muito da fonte primária. Próximo passo no estudo da teoria do conhecimento: continuar com Kant e retroceder ainda mais (no tempo, digo) para Hume.

sexta-feira, maio 05, 2006

Sob o signo da polêmica

Com algum atraso, reproduzo aqui matéria minha publicada no Valor há alguns dias sobre astrologia nas universidades. O professor Tambosi já a tinha gentilmente republicado no blog dele. Mais pra frente vou publicar a íntegra da entrevista que fiz com o físico Jean Bricmont, da Universidade de Louvain, na Bélgica.


Alguém duvida de que a campanha presidencial vai ser acirrada, mesmo com o favoritismo de Lula? E de que o Brasil precisa coordenar de forma racional os recursos de que dispõe para superar as dificuldades? Seria preciso recorrer aos astros para chegar a essas conclusões? A resposta a essa última pergunta tende a ser negativa, já que poucos analistas discordariam das duas primeiras, da lavra de uma astróloga - baseadas na suposta influência dos astros em nossas vidas. Segundo os críticos, essa é uma típica "previsão" da astrologia: puro "non-sense", tolice.Mas, mesmo com as restrições da grande maioria da comunidade acadêmica, que a considera uma "pseudociência", a astrologia tem conseguido furar o bloqueio. Algumas instituições de renome, como a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), têm oferecido cursos de astrologia, em nível de extensão. O professor Ricardo Lindemann, do Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais (NEFP), da UnB, reclama que há muito "preconceito" porque as pessoas não sabem o que é a astrologia. Ao aplicar algumas "regras da astrologia", os pesquisadores do NEFP teriam conseguido identificar, com 100% de acerto, um grupo de alunos que fariam vestibular em poucos dias de um outro grupo que não faria as provas, com base em seus mapas astrais, que teriam acusado um momento de "definição profissional".Adepto do anarquismo metodológico de Paul Feyerabend, o professor Paulo Araújo Duarte, do departamento de geociências da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), considera a astrologia um "campo do conhecimento humano" como qualquer outro. Para ele, o conhecimento popular pode ser uma "alavanca para o conhecimento científico e jamais deve ser desconsiderado. O que eu não gosto é da arrogância e do preconceito de cientistas com relação ao que não é rotulado como ciência".Mas a reação não tardou. Em sua página pessoal na internet, o diretor executivo da ONG Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo, pediu o fechamento da UnB. Formado e pós-graduado em matemática, ele não faz rodeios: "Isso é picaretagem".O filósofo Orlando Tambosi, da UFSC, concorda. "Ensinar pseudociências numa universidade contraria os mais caros princípios de uma instituição universitária. Desde sua origem, as universidades se dedicam à geração e difusão de conhecimento nas ciências, na filosofia, nas engenharias e nas artes", afirma. "É tão absurdo quanto ensinar o criacionismo nas escolas", dispara o astrônomo da Universidade de São Paulo, Augusto Damineli. Segundo ele, a astrologia está mais para religião do que para ciência. "Astrologia não é ciência, nem arte, nem outra atividade com corpo de conhecimento objetivo estabelecido."As restrições dos cientistas são muitas, a começar pela configuração celeste que os astrólogos usam. Durante o ano, o Sol percorre um determinado caminho no céu, chamado de eclíptica, tendo as constelações como pano de fundo - elas formam o zodíaco. Uma pessoa será de Sagitário, por exemplo, se o Sol estava percorrendo aquela constelação quando do seu nascimento.Ocorre que os astrônomos descobriram que o Sol passa não por 12, mas por 13 constelações em um ano - das 88 existentes. Na Antigüidade já se conhecia Ofiúco, mas ela ficava longe da eclíptica. No período de quase 3.000 anos, o movimento de precessão do eixo de rotação da Terra (tipo um peão cambaleando), acabou fazendo com que o Sol passasse rapidamente por Ofiúco. Essa constelação fica entre Escorpião e Sagitário - de 30 de novembro a 17 de dezembro. "Sim, é isso mesmo, muitos de nós somos do signo de Ofiúco e, felizmente, isso não tem a menor importância", provoca o físico Paulo Bedaque. Paulo Duarte lembra que a divisão do zodíaco em 12 signos é puramente arbitrária e segue apenas a tradição dos povos antigos.Outro questionamento-chave dos astrônomos é que a influência da força gravitacional dos corpos celestes sobre nós é desprezível - com exceção dos efeitos óbvios da luz do Sol como fonte de energia. Nessa seara, uma das crenças mais comuns é o da suposta influência da mudança da Lua nos nascimentos de bebês. O raciocínio parece ser o seguinte: se a Lua é capaz de interferir nos movimentos dos oceanos, então seria natural que o mesmo acontecesse com corpos menores.O astrônomo Fernando Lang da Silveira, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), considera esse um argumento aparentemente "persuasivo", mas totalmente falso. A Lua e o Sol realmente influenciam as marés porque o tamanho da Terra não é desprezível em relação às distâncias até a Lua e até o Sol: as marés ocorrem porque os oceanos são grandes o suficiente para sofrerem a ação da gravidade de forma diferente em diferentes pontos. Ou seja, o tamanho e a distância importam - e muito. Por isso, não há efeito de maré num pequeno lago ou mesmo no útero de uma gestante - já que todos os pontos desses ambientes estão praticamente à mesma distância do Sol e da Lua. "O obstetra que realiza o parto de uma criança exerce uma atração gravitacional sobre ela seis vezes maior do que o planeta Marte", exemplifica o astrônomo Kepler Oliveira Filho, da UFRGS. O filósofo Osvaldo Frota Pessoa Jr., da USP, resume que a astrologia não é ciência porque "contradiz as teses principais da ciência atual".A polêmica suscita a inevitável e espinhosa discussão do que vem a ser ciência. Depois das batalhas entre as muitas correntes epistemológicas do século XX, a maioria dos especialistas neste começo de século concorda que não há uma definição acabada. Damineli explica, entretanto, que as várias ciências têm, cada uma delas, "um determinado corpo de fenômenos [naturais, sociais ou individuais], que podemos chamar de base empírica, têm um corpo de princípios, que podemos chamar de pressupostos teóricos que delimitam as condições de aplicabilidade e metodologia para ligar a base empírica ao campo teórico, para prever situações ainda não exploradas e para testar se são verdadeiras ou falsas". Pessoa Jr. complementa que a ciência envolve teses que precisam ser testadas empiricamente, cujos resultados são submetidos à apreciação de outros cientistas. "É este consenso que falta em relação à astrologia." Tal controle pelos pares funcionou recentemente no caso do sul-coreano Woo-suk Hwang, que teria feito a primeira clonagem de células-tronco embrionárias humanas, que não passou de uma fraude.Engenheiro por formação, Lindemann e o ex-coordenador do NEFP, Paulo dos Reis Gomes, defendem o status de ciência para a astrologia. Segundo Lindemann, os estudos do NEFP seguem a metodologia científica da observação, hipóteses, experimentação e tese (generalização). E que os resultados, medidos de forma estatística, revelam que as posições dos astros interferem na vida das pessoas. Mas ele admite que essa interferência pode não ser creditada à gravidade, mas a uma outra força ainda "desconhecida pela ciência. Se não estudarmos, não descobriremos", justifica.Considerando equivocada a decisão da UnB, o físico Jean Bricmont, da Universidade de Louvain, na Bélgica, propõe um desafio aos astrólogos: "Peça aos defensores da astrologia para fazerem uma porção razoável de previsões, num experimento controlado, cujo resultado seja melhor do que o acaso. Cientistas fazem isso o tempo todo. Se eles não passarem no teste, por que nós deveremos acreditar neles? E se não podemos acreditar neles, por que deveríamos ensinar o que dizem?" Bricmont ficou mundialmente conhecido ao escrever, com Alan Sokal, o livro "Imposturas Intelectuais", que solapou o discurso pós-moderno de alguns filósofos que abusavam de metáforas científicas sem cabimento.O lógico Newton da Costa, ex-professor da USP e hoje na UFSC, até admite o estudo de astrologia em universidades, desde que tratada como "fenômeno social". Mas ele nega o status de ciência, já que os astrólogos alegam que o que fazem é verdade absoluta; já a ciência, ao contrário do senso comum, trata com outros conceitos de verdade, sempre submetida à checagem. "Enquanto a ciência pode ser reproduzida, cinco astrólogos podem fazer previsões diferentes sobre o mesmo tema."Tambosi chama a atenção para um ponto negligenciado: o relativismo que grassa nas ciências humanas e sociais, na maioria das universidades brasileiras, acaba por abrir as portas para o esoterismo. "Se tudo é relativo, se tudo é reduzido a discurso ou texto, desaparece a questão da verdade. Todos os 'textos' estão em pé de igualdade. Assim, uma teoria científica tem o mesmo valor de um discurso do papa ou de uma carta astrológica." Tudo isso poderia parecer restrito às arengas acadêmicas e crenças pessoais, mas não é assim. Algumas empresas recorrem a meios como astrologia, grafologia e numerologia, na seleção e gestão de pessoal. O professor Thomas Wood Jr., da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que as empresas procuram "placebos" para solucionar problemas reais ou imaginários, "soluções que trazem conforto emocional. A gestão é tão amadora que qualquer mapa serve, até um mapa astral".

quinta-feira, maio 04, 2006

Coincidência

Comprei A Sociedade Afluente, há duas semanas, por dez reais, naquela livraria que tem lá no prédio da editora Globo. Dias depois, vi que JK Galbraith morreu, aos 97 anos. Keynesiano de prosa boa, o economista causava inveja nos seus pares por escrever muito e bem. Mas não chegou a deixar nenhuma grande contribuição original em teoria econômica. Foi mais um comentador, um crítico atento às mazelas do capitalismo moderno.

quinta-feira, abril 20, 2006

Faz um ano

No dia 20 de abril de 2005,mais ou menos por esta hora, eu e minha mãe estávamos no hospital São João Batista, esperando pela cirurgia do meu pai. Foi a última vez que o vi lúcido; a última vez que falei com ele. Exatamente as 15 horas, entrou na sala de cirurgia, de onde só sairia 15 minutos antes da meia-noite. Nunca senti tanta angústia quanto naquelas nove horas. Ou melhor, senti sim, na segunda cirurgia a que ele teve que submeter, para amputação de uma perna, durante os 27 dias que passou na UTI. Os médicos haviam dito que não tinha nem 10% de chances de resistir, mas resistiu... até o dia 17 de maio. Que Saudade.

quarta-feira, abril 12, 2006

Banalização


Esta foto de capa da Folha de S. Paulo de ontem me chocou. Fiquei pensando na banalização da violência. Não estou falando de sensacionalismo da imprensa, não; não é isso. Estou falando de que não passa um santo dia que não tenhamos notícias de mortes em atentados no Iraque, no Afeganistão ou nos conflitos entre árabes e israelenses. Na maior parte delas, a gente passa os olhos ou ouve de forma rápida. "Ah, morte no Iraque não é mais notícia." Impressionante como a gente se acostuma com essas coisas. Uma foto, assim, mais contundente serve para uma pequena pausa para reflexão. Pequena, mesmo; porque em seguida já nos voltamos para os afazeres que nos consomem.

segunda-feira, abril 10, 2006

A patrulha dos petralhas

Se eu fosse um jornalista e trabalhasse em um grande jornal, faria uma matéria sobre os esforços dos petralhas para visitar diariamente os blogs que sentam o sarrafo no apedeuta, no "nosso guia", enfim, naquele que um dia já foi chamado de sapo barbudo. Sapo que nós temos engolido há quase quatro anos e, como desgraça pouca é bobagem, vamos agüentar goela abaixo por mais quatro.
Voltando: a patrulha é incansável. Blogs como os dos filósofos Orlando Tambosi (O Iconoclasta, link ao lado) e Roberto Romano são freqüentemente visitados pela horda. Para esses novos bárbaros, todos que criticam o desgoverno Lula são "de direita"; ou melhor, da "nova direita".
Os comentários deles são todos assim, cheios de chavões retirados das cartilhas - uma pobreza só. Os clichês da vez são "nova direita", "udenista", "gospistas", e por aí vai. Outro lugar comum é piadinha sem graça, quase sempre debochando dos otários que criticam os políticos desonestos, como os mensaleiros do pt e dos outros aliados.
Têm em comum, também, o recurso covarde do anonimato.
Os petralhas também se consideram "de esquerda". Sim, os banqueiros que se fartam no banquete dos juros petistas agradecem seu esquerdismo!
Eu, por exemplo, sou chamado de direitista por não compactuar com a roubalheira. Tenho que confessar, aqui, que estive enganado durante muito tempo: desde 1989 votava no Lula. Não é preciso dizer que nunca mais. Mas não deixo de louvar, aqui, a vitória de Romano Prodi, na Itália. Mesmo uma miscelânea de partidos, como a formada pela coligação de Prodi, é muito melhor do que Berlusconi. Façamos o mesmo aqui; defenestremos os enganadores e saltimbancos.

segunda-feira, abril 03, 2006

E a gente ainda perde tempo trabalhando...

... enquanto este bando de larápios assalta os cofres públicos na cara dura.
Está aqui uma fantástica matéria publicada na FSP de hoje. É candidata ao prêmio Esso.
Jobim tinha que sair da presidência do STF direto pra cadeia. O que esperar de um magistrado que fraudou o texto da Constituição nos bastidores do Congresso?


STF reembolsou Jobim por viagens pagas por anfitriões
LILIAN CHRISTOFOLETTI

DA REPORTAGEM LOCAL
O ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Nelson Jobim, que deixou o cargo na semana passada para retomar seus projetos políticos, recebeu do órgão quase R$ 28 mil de adicionais por viagens realizadas em 2005. Na maior parte das vezes, a ajuda de custo foi para viagens de caráter não-oficial e integralmente pagas pelos anfitriões.Após um cruzamento de informações registradas pelo Siafi (sistema de acompanhamento de gastos federais), publicadas em reportagens e divulgadas na agenda do STF, a Folha apurou que Jobim fez pelo menos 32 viagens nacionais e quatro internacionais no ano passado. Passou, no mínimo, 84 dias longe de Brasília.Em 27 viagens, o convite partiu de universidades particulares ou de associações. Jobim foi chamado para dar palestras sobre temas jurídicos, ser paraninfo de turma de formandos em direito, receber medalhas ou participar de jantares em sua homenagem.Por meio de sua assessoria, Jobim disse que não cobra para dar palestras, que as viagens tiveram caráter representativo e que, por isso, o recebimento de diárias foi absolutamente legal.Cinco especialistas ouvidos pela reportagem, no entanto, disseram que a diária existe para ressarcir prejuízos decorrentes de uma viagem realizada em caráter oficial. Esse prejuízo é inexistente, afirmam, quando o deslocamento é pago pelo anfitrião. Para eles, convites pessoais não se encaixam na definição de evento oficial.Viagens de JobimEm abril do ano passado, por exemplo, Jobim ficou três dias num resort de luxo na ilha de Comandatuba, na Bahia, num encontro da Confederação Nacional das Instituições Financeiras. Todas as despesas, segundo a Febraban (Federação Brasileira dos Bancos), foram pagas pelos bancos. Mesmo assim, o ex-ministro requisitou R$ 544,50 em diárias.Somente em agosto, Jobim viajou seis vezes a convite. Numa delas, ficou quatro dias em um hotel cinco estrelas em Salvador, na Bahia, para participar de um evento patrocinado por associações de classe. Levou como acompanhantes a mulher dele, Adrienne Senna, e um assessor.O casal ganhou dos anfitriões passagem aérea, transporte terrestre, alimentação e hospedagem -todos os gastos foram pagos por companhias estatais que patrocinaram o evento. Para esse deslocamento, o ex-ministro solicitou ao Supremo R$ 693.Em setembro, Jobim viajou de Brasília a São Paulo para ser homenageado por uma revista e para palestrar num congresso de executivos de finanças. Mesmo com as despesas pagas pelos organizadores, Nelson Jobim requisitou ao tribunal uma ajuda de custo no valor de R$ 379,50.Algumas das viagens são consideradas oficiais, como, por exemplo, quando ele foi convidado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para participar do funeral do papa João Paulo 2º na Itália ou quando foi ao Paraguai em reunião de Cortes Supremas do Mercosul. Nos dois casos, Jobim recebeu do Supremo R$ 2.291 e R$ 2.976, respectivamente.AgendaA resolução 254, de 2003, define a diária como uma indenização para despesas decorrentes de viagens oficiais feitas por servidores do STF que estejam no efetivo exercício do cargo ou da função.Em agosto de 2004, esta resolução, que não contemplava a possibilidade de pagamento de diárias em viagens patrocinadas, sofreu uma "adaptação" -isso porque, mesmo sem previsão legal, alguns ministros já recebiam meia diária em viagens sem nenhum custo.Esta observação consta no texto que alterou a resolução. Tal prática, no entanto, "não se configura rotina freqüente" no Supremo.

domingo, abril 02, 2006

O feminismo é um movimento desonesto

Ando meio sem tempo e, quando o tenho, sou acometido por uma preguiça descomunal. Logo, os posts escasseiam.
Antes que as minhas muitas leitoras me crucifixem, a frase do título não é minha, mas da professora e escritora inglesa marxista Alison Wolf, em entrevista publicada no caderno Mais! da FSP de hoje.
Alguns trechos:

"Muitas feministas ainda se encontram em campanha, afirmando que as mulheres não são bem tratadas o suficiente no mercado de trabalho, que têm mais dificuldade que os homens para progredir na carreira, que sofrem preconceito e nunca atingem os postos mais altos. Na verdade, isso é puro "nonsense", falta de perspectiva histórica.É preciso entender que tudo o que as mulheres conquistaram no mercado de trabalho só teve início nos últimos 50 anos -e de forma progressiva. As pessoas que detêm os postos mais altos atualmente são as que estão na casa dos 50 anos e entraram no mercado de trabalho antes dessa abertura."

"Acho que eles [homens e mulheres] podem ser iguais [em relação à renda], se as mulheres não tiverem filhos. As mulheres que escolherem ter filhos não poderão ser iguais."

"Ele [o feminismo] se apresentava como um movimento que defendia o interesse de todas as mulheres, mas era apenas voltado a uma minoria de mulheres da elite."

"O feminismo foi responsável por difundir essa visão de que apenas o trabalho importa e nada mais vale a pena. O feminismo divulgou a idéia de que quem está fora do mercado de trabalho não tem valor".

"Há especialmente as mulheres feministas jornalistas que gostam de apontar casos de preconceito ou dificuldades no mercado de trabalho, mas o movimento chegou ao fim."

"O argumento que apresento é que há problemas estruturais e inerentes à situação atual. Eu digo que é estúpido se referir às mulheres como se elas fossem todas iguais -ninguém se refere aos homens como se eles fossem todos iguais.Longe de formarem um grupo homogêneo, as mulheres se dividem em dois grupos de forma dramática: as educadas, que buscam uma carreira em detrimento da dedicação à família, e as não-educadas, que se dedicam à família por falta de opção."

"Se tivesse que especular, diria que talvez algumas mulheres sejam geneticamente mais propensas à idéia de ter filhos de que outras. Talvez depois de algumas gerações passemos a ter mais mulheres que queiram ficar em casa e ter filhos em detrimento de uma carreira."

domingo, março 26, 2006

Abuso de poder

Editorial da Folha de hoje, publicado na capa do jornal.

ABUSO DE PODER
A desfaçatez, o uso sistemático da mentira, o empenho em desqualificar qualquer denúncia, nada disso constitui novidade no comportamento do governo Lula. Chegou-se nos últimos dias, entretanto, a níveis inéditos de degradação ética, de violência institucional e de afronta às normas da convivência democrática. Na tentativa inútil de salvar a credibilidade em farrapos de um ministro, viola-se o sigilo bancário de um cidadão comum, o caseiro Francenildo Costa _enquanto toda sorte de malabarismos jurídicos e parlamentares protege as contas de Paulo Okamotto, celebrizado pelos nebulosos favores que prestou ao presidente. Fato ainda mais grave, o caseiro se torna alvo de investigação por parte da Polícia Federal, num ato indisfarçável de ameaça e abuso de poder. A iniciativa _tomada em tempo recorde_ não tem paralelo na história recente do país, infelizmente pródiga em situações nas quais representantes do poder público se viram às voltas com denúncias sérias de corrupção. Seria o caso de qualificá-la como um crime de Estado, não fosse, talvez, excessiva indulgência chamar de "Estado" o esquema de intimidação oficial que assume o proscênio no momento. Com arrogância e desenvoltura típicas de uma organização habituada à impunidade e aos acertos inconfessáveis, representantes do lulismo já faziam saber, antes mesmo que as contas do caseiro viessem ao conhecimento público, que dispunham de dados supostamente capazes de incriminá-lo. Posteriormente, a demora em chegar aos responsáveis pelo abuso não fez mais do que intensificar as convicções de que terá partido dos altos escalões governamentais a orientação para que fosse levado a efeito. Da "lei da mordaça" contra o Ministério Público ao abortado projeto de um Conselho Nacional de Jornalismo, da tentativa de expulsar do país o correspondente do jornal "The New York Times" aos sucessivos embaraços antepostos à ação das CPIs, o governo Lula já deu mostras de que convive mal com a liberdade de imprensa e com a procura da verdade. Ultrapassou, contudo, o terreno das propostas legislativas desastrosas, como ultrapassou também o terreno das bazófias, das chicanas e do cinismo militante, para se aventurar na prática da chantagem e do abuso de poder.

sábado, março 25, 2006

No Bananão, não funciona

No Bananão, comprar pela internet dá uma dor de cabeça! Minhas duas experiências mais recentes foram frustrantes. Primeira: fiz uma compra e parcelei o valor em dois cartões - uma das opções pelas quais eu "poderia estar optando", na língua dos infames. Como usaria dois cartões, teria que passar pela experiência - sempre desagradável - de falar com a atendente. Ela me informou que um dos cartões não fora aprovado. No dia seguinte, a operadora do cartão me confirmou que a compra havia sido aprovada. Voltei a ligar para a Americanas.com e passei o número da aprovação que me fora passada pela operadora, mas não adiantou. "Vamos ter que estar estornando o valor do seu cartão." Dos dois cartões, eu pedi, ao que a mocinha confirmou. Mas daí não agüentei:
- Mas a compra não foi reprovada?
- Foi.
- Mas então o que é que vocês vão estornar, minha filha?
Ela gaguejou e repetiu que os valores seriam estornado. Praguejei um pouco e disse que jamais voltaria a comprar na Americanaspontocom. E ponto final.
A segunda foi com o Submarino. Comprei um reles livro que estava com um preço ótimo. Mas o prazo de entrega era de até sete dias! Sete dias para entregar um livro em São Paulo, sendo que a empresa está aqui do lado!! Eu teria vergonha de dizer que demoraria uma semana pra entregar um livro na mesma cidade. O submarino deve estar fazendo água (não resisti). Mas tudo bem. Ocorre que dois dias depois recebi um email dizendo que a entrega atrasaria!!! Espinafrei de novo e deixei pra lá.
Pra não dizerem que isso acontece com todas as empresas de internet: os últimos três livros que comprei na Amazon chegaram muito, muito antes do prazo dado. E fiquei surpreso com a qualidade dos livros. Nem pareciam usados. Enfim, lá na terra dos imperialistas as coisas funcionam. Já aqui...

terça-feira, março 21, 2006

A primeira vez

A primeira vez a gente nunca esquece, mesmo. Foi no sábado passado. Ele começou, gentilmente, falando de relações e terminou no limite. Não é nada disso que vocês estão pensando. Sou espada, pô, ou melhor, facão. Estou falando do meu curso intensivo de economia. No sábado, tive minha primeira aula de "limite", no curso de cálculo. Como não aprendi essas coisas no segundo grau e nem na graduação, tudo é novidade. Não sabem vocês a alegria que fiquei ao resolver a primeira funçãozinha de limite.
Mas o professor tratou de jogar uma água fria: isso é só o começo, depois piora bastante. Derivada, integral, equação diferencial...
O professor não é exatamente um craque em matemática, mas disse umas coisas interessantes. Por exemplo: "os melhores livros de matemática são os que têm menos números". Outra: matemática não é número. A grande parte do que hoje se relaciona com matemática pode ser mais adequadamente chamado de computação, ou seja, o ato de calcular. Matemática, mesmo, é a lógica.
Em teoria dos conjuntos, por exemplo, você pode trabalhar só com conceitos. Sabe aquelas coisinhas básicas de "união" e "intersecção" que todo mundo acha que é moleza? Pois isso é a essência da matemática e um dos ramos mais difíceis. O professor brinca dizendo que vai começar de leve, com teoria dos conjuntos, coisa e tal, mas a coisa vai ficando feia à medida que se vai fazendo operações com conjuntos. Aliás, os principais problemas de contradição na mátemática com os quais os matemáticos se debateram no começo do século XX estavam justamente na teoria dos conjuntos, da qual parte toda a aritmética.
Depois o mestre deu uma aliviada. Disse que, na verdade, considera derivada muito mais simples do que teoria dos conjuntos; disse que é só uma questão de calcular, de seguir a técnica. Tomara.

domingo, março 19, 2006

Para o populacho

Não sei bem porque, mas neste ano não estava muito a fim de visitar a bienal do livro, no Anhembi. Acabamos indo ontem à noite, minha mulher e eu. Uma perda de tempo; um programa de índio (expressão que desgosta os policitamente corretos, mas não tô nem aí). Só na terceira visita à bienal é que percebi o óbvio: não é feita para quem gosta de livros. Quero dizer, não é feita pensando em quem lê regularmente, quem visita livrarias com freqüência. Não há novidades lá, nem promoções.
A irritação começa na chegada. Fila de meia hora e 15 reais para o estacionamento - lotado. Achei razoável pagar 15 pratas por duas pessoas. Ledo engano. Na entrada, mais 10 reais por cabeça. Ou seja, você ainda não visitou nenhum estande e já morreu com 35 paus! O preço de um livro bom.
Você entra e logo sente o calorão. Um negócio abafado, insalubre, absurdamente desconfortável. Num ambiente assim, é difícil desodorante que não vença - se é que vocês me entendem. Resultado: gente fedendo a "cachorro molhado" -- sabe aquele cheiro de roupa que secou em lugar fechado? Pois é, isso mesmo.
Ficamos quase duas horas rodando, até as pernas não agüentarem mais. Nesse tempo, achamos um único estande com ar condicionado, da editora Atlas. Parabéns para eles. Ficamos naquele refúgio por uns minutos até pararmos de suar. Respiramos fundo e deixamos aquele oásis.
Estava procurando dois livros e não consegui encontrá-los, naquela loucura infernal.
Resumo da ópera: aquilo é feito pro populacho. Não me refiro aos pobres de dinheiro, não, mas aos que vão a uma livraria uma vez a cada dois anos.

quarta-feira, março 15, 2006

Alckimia


Bom, o improvável aconteceu: os tucanos decidiram lançar Alckmin contra Lula. Jogaram no colo do apedeuta a chave do Alvorada por mais quatro anos. Eu tinha alguma esperança com Serra que, mal ou bem, foi forjado no pensamento "desenvolvimentista"; ou seja, não voltado para banqueiros e rentistas.
Se Lula não ganhar, não vai fazer a menor diferença. Com o picolé de Chuchu (crédito ao Simão), serão mais quatro anos de marasmo, de mesmice, de vôo de galinha; enfim, tudo de que o Bananão precisa para continuar com os recordes de desigualdade e de juros altos.
Com Serra seria diferente? Não estou certo, mas lembro de que em 2004, economistas da Unicamp que podem ser classificados de "esquerda" apoiaram Serra contra Marta, para a prefeitura de São Paulo. Só o fato de não agradar aos banqueiros ele já soma milhares de pontos no meu conceito. Seria, pelo menos, uma tentativa.
Com Alckmin, nem isso será. Como mostra a foto aí do lado, vai ser a continuidade do FHC, ou seja, a continuidade do Lula... Afinal, chuchu é tudo igual; é o quarto estado físico da água.
Mas o bicho foi macho. Peitou Serra, até então considerado o anti-Lula. (Mais uma prova de que Alckmin vai apenas continuar o que está dando errado é sua rejeição à expressão "anti-Lula".) Acho que pra decidir a disputa, a cúpula tucana decidiu medir o tamanho dos bicos dos candidatos. Covardia, né.
O grande erro do vampiro foi ter se candidatado à prefeitura de São Paulo, em 2002. Tivesse esperado mais um pouco e poderia até bater chapa com Alckmin, já que não teria o que perder. Agora, resta o governo do estado, onde a mulher do argentino aparece em primeiro nas pesquisas. Dá-lhe vampiro; vamos sugar o sangue da madame.

segunda-feira, março 13, 2006

Math

Meu chavão preferido atualmente é "esta internet faz cada coisa!"
Aqui tem um curso de matemática http://www.cepa.if.usp.br/e-calculo/
É um projeto do Instituto de Matemática da Usp. Muito bem-feito. Eles tentam usar, ainda que timidamente, noções de história da ciência para explicar o conteúdo, propriamente dito. Essa sempre foi uma grande discussão em história da ciência: como ela pode ajudar no ensino dos conteúdos? Não, não se trata de contar historinhas pitorescas sobre cientistas, não.

domingo, março 12, 2006

Preferências

É atribuída a Aristóteles a frase "a virtude está no meio" - ou algo do tipo. Cerca de 2.300 anos depois, os teóricos da economia chegaram ao mesmo veredito: o consumidor tende a preferir as médias aos extremos. Isso se aplica ao consumo de bens. Dentro de uma mesma curva de indiferença, na qual há várias cestas de bens em relação às quais o consumidor é indiferente entre uma e outra, mesmo assim o consumidor tende à preferir uma cesta que contenha um número razoável de todos os bens. Mas há um tipo de "consumidor" que gosta de se "especializar" em um determinado bem: o viciado em drogas. Esse abre mão de todos os outros bens para ter o máximo possível de droga. Tá aqui um bom eufemismo pro pessoal chegado a uma carreira ou coisa parecida. Falei que estas aulas de economia ainda iam dar pano pra manga.

quinta-feira, março 09, 2006

É só servir


Bom, de que a pizza está pronta ninguém mais tem dúvidas; ainda mais depois da votação de ontem à noite que livrou a cabeça de um tal Luizinho que se entitula "professor" e de seu colega de bando, Roberto Brant. São de partidos diferentes; o primeiro do petê e o segundo do pefelê, mas podem ser representados graficamente pela figura de uma ferramenta que tem um lado pontiagudo e o outro mais larguinho.
Agora vejam vocês, o pefelê do "doutor" Jorge Konder Bornhausen (como o chamam lá em SC) se mancomunou com aquela "raça" da qual ele dissera que o Brasil deveria se livrar! É por isso que CPI nenhuma vai pra frente neste congresso, meu caros. Qualquer investigaçãozinha mais profunda nas contas fétidas do petê e a petezada ameaça chafurdar ainda mais fundo e encontrar enterrado lá um - senão muitos - tucanos e outros bichos menos nobres, como aquele espécime que um personagem do Jô Soares carregava numa gaiola com extremo cuidado, o corrupto. Afinal, de que outro caso se tem notícia de um corrupto na gaiola?

terça-feira, março 07, 2006

Links (in)úteis

Como disse, estou estudando algumas coisas malucas, entre elas, matemática e microeconomia. Aqui vão dois links que podem ser interessantes pra quem gosta disso. O primeiro é de noções de estatística: http://alea-estp.ine.pt/html/nocoes/html/nocoes.html. O segundo é de micro: http://paginas.terra.com.br/educacao/Microeconomia/.
Mas não espalhem porque pode sobrecarregar essas páginas tão interessantes.
Agora falando sério, esta internet facilita as coisas, heim. Só não aprende quem não quer.

domingo, março 05, 2006

Papinho cabeça



Amanhã não vai dar outra: o assunto vai ser o Oscar. Pra quem não é cinéfilo como eu, é um saco. Não assisti a nenhum dos indicados e não tenho inveja de quem os assistiu.
Hoje em dia, cinema virou sinônimo de cultura. Se o sujeito manja muito de cinema, logo pode ser considerado culto. Quem não vai ao cinema com freqüência é um verdadeiro alienado, desinformado, um verdadeiro troglodita.
Sim, isso parece uma autodefesa, já que vou ao cinema muito raramente. Incomoda-me o barulho das pessoas roendo, fazendo aquele barulho irritante com o canudinho quando o refrigerante está no fim, cutucando com o joelho nas costas da minha cadeira, falando durante o filme... enfim, há uma inifinidade de motivos para eu não ir ao cinema. Há outros para ir? Talvez.
Mas não adianta: em qualquer rodinha de amigos ou de colegas de trabalho, amanhã só vai dar o tal do Oscar. Neguinho fica se achando o máximo falando sobre roteiros, tomadas, direções como se fosse o próprio Orson Welles. Outro dia estava falando com um colega sobre o assunto de um livro e ele me disse: " tenho que ver este filme de novo". Desconversei e caí fora.
Numa grande empresa em que trabalhei aqui em São Paulo, eu tinha um colega cujo papo preferido era o quê? Cinema, of course! Eu evitava almoçar com o cidadão às segunda-feiras porque ele desfiava o rosário de filmes a que assistira no fim-de-semana. Um belo dia, os olhos do pobre coitado quase saltaram da cara quando eu disse que não havia visto Matrix. "Você nunca assistiu Matrix", perguntou-me; aquele tipo de pergunta que soa como repreensão, sabe? Compreensível; eles estavam falando sobre o Matrix 2 - ou três, sei lá - e eu não tinha visto nem sequer o primeiro! Devo ter perdido um mil pontos na consideração do distinto, que é muito boa pessoa, diga-se.
O que é engraçado é que soa pedante ao extremo eu falar sobre o livro de epistemologia ou de ciências que estou lendo. Meu colega de trabalho vai me achar um lunático pedante. Mas eu tenho que aturar o papinho de cinema deles.

quinta-feira, março 02, 2006

Tá sobrando dinheiro na Venezuela



Será que a Vila Isabel ganhou o carnaval do Rio por causa dos dólares do Chavez ou das passistas como a da foto acima? Pode ser que pela duas razões.
Agora, deve estar sobrando dinheiro na Venezuela, heim! A Globo disse que fala-se em US$ 1 milhão, o que não foi confirmado pela escola. O enredo da Vila foi uma exaltação à "latinidade", à integração da América Latina. Tudo bem, acho tudo muito bonito, mas é preciso deixar de bravatas e retórica anti-americana e passar a agir.
Chavez, por exemplo, poderia começar por usar melhor o dinheiro da estatal do petróleo PDVSA. Aplicar os recursos em programas de desenvolvimento, em ciência e tecnologia, em vez de patrocinar desfiles de carnaval que nada mais são do que a versão simbólica de sua retórica anti-americana vazia. Em vez de se preocupar tanto com os americanos, que zele pelo bem-estar do povo sofrido da Venezuela. Isso já estaria de bom tamanho; não precisa querer consertar todos os males da América Latina - ou melhor, martelar discursos sobre eles.

terça-feira, fevereiro 28, 2006

Dezessete anos depois...

... de terminar o segundo grau, volto a estudar matemática. Na faculdade de jornalismo, claro, não estudei nada de matemática. Vi alguma coisa de lógica, de forma bem superficial, principalmente a parte de falácias. No mestrado em História da Ciência, li um pouco mais sobre história da lógica, mas matemática, mesmo, aquela de resolver problemas, só agora.
De acordo com algumas teorias sobre cognição, haveria períodos ideais para o aprendizado de determinadas coisas. Uma língua estrangeira deveria ser aprendida cedo, até a adolescência. Assim, também a matemática seria coisa para jovens. Os grandes matemáticos fizeram suas maiores contribuições para a disciplina ainda antes dos 30 anos. A medalha fields, a Nobel da matemática, só é concedida a matemáticos que não tenham ultrapassado essa idade.
Mas, como não tenho pretensão alguma em colocar tal medalha no peito, retomo com gosto juvenil o estudo da matemática. Aliás, nem tão juvenil assim, já que, quando (mais) jovem, em plena rebeldia adolescente, considerava a matemática inútil para minhas pretensões de mudar o mundo.
O fervor juvenil passou e, agora, lúcido outra vez, retomo os estudos. Explico: estou começando um curso de preparação para fazer a famosa prova da Anpec (Associação nacional dos Economistas). Matemática, estatística, economia brasileira, micro e macroeconomia. Na primeira aula, de apresentação, o professor disse que a turma é muito eclética; "tem economista, advogado, administrador e até jornalista".
Jornalistas não costumam gostar de matemática ou de nada que exija rigor e raciocínio formal - é claro que há as exceções. Como fiz jornalismo na graduação, decidi que na pós estudaria de verdade. Completo o mestrado, vou tentar um doutorado ou em história da ciência, ou em economia. Na minha opinião, os estudos em comunicação são, na maioria dos casos, uma verdadeira perda de tempo; pseudo-ciência.
Mas admito que não é fácil voltar aos livros de funções e, pela primeira vez, encarar o cálculo.
O coordenador do curso não parece acreditar que eu possa encarar a empreitada, difícil até mesmo para os economistas mal-formados. Aconselhou-me assistir às três primeiras aulas e voltarmos a conversar em seguida para ver se tenho mesmo condições de acompanhar o curso. Estou determinado a desapontá-lo.
Da primeira lição, os economistas mais heterodoxos não vão gostar muito: macro=micro=matemática. Ou seja, estude matemática e você aprenderá micro e macroeconomia. A ortodoxia econômica aborda a macroeconomia do ponto de vista da microeconomia, ou seja, dos postulados da teoria neoclássica do comportamento do consumidor e da firma, que, em última instância, são abordagens matemáticas. Conto mais à medida que esse mundo novo se me apresentar.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

O roto e o esfarrapado

A funkeira Tati Quebra Barraco abandonou o trio elétrico da cantora Ivete Sangalo porque não gosta de axé. Com um gosto musical refinadíssimo, apurado durante anos nos morros cariocas, a moça não agüentou o pobre ritmo baiano e se mandou. E repetiu isso no dia seguinte.
A barraqueira ganha a vida a sapecar versos sofisticados como: "é som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado", ao ritmo do que os cariocas chamam de "funk". Até isso eles fizeram: acabaram com a imagem do bom e velho funk americano. Salve James Brown! Por que é que nossos favelados são muito menos talentosos do que os americanos?
Cá pra nós: axé e "funk" carioca no mesmo trio elétrico é de fazer qualquer um ir pro céu sem passar pelo purgatório. Ainda bem que o carnaval já tá acabando.

domingo, fevereiro 26, 2006

O Haiti é aqui


O desgoverno Lula entrou nessa de mandar força de "paz" para o Haiti e acho que acabou influenciado. Como é que um governo que não consegue cuidar das coisas aqui mesmo vai se meter num barafunda daquelas?! Mas não dá pra dizer que o Lula não aprendeu alguma coisa com os haitianos. Não sejamos injustos: o homi não lê, mas aprende. Aprendeu a como manter a economia estagnada.
Agora os números são oficiais: o PIB do Brasil foi o segundo que menos cresceu no ano passado. Atrás de quem? Do Haiti, claro. Afinal, são dois países industrializados e que podem se dar ao luxo de patinar durante um ano inteiro.
Não precisa ser economista formado em Harvard para saber que com as taxas de juros mais altas do planeta não se podia esperar algo diferente. Nos três primeiros anos do apedeuta, a economia cresceu majestosos 2,5%! Não é uma beleza pra quem prometeu 10 milhões de emprego? Alguém precisa avisar pra aquela mistura de Jaba com anão de jardim que sem crescimento não tem emprego. Mas o que ele quer mesmo é o povão precisando de cesta básica pra votar nele em outubro - igualzinho aos coronéis a quem passou a vida criticando.
Os petistas diriam que também no governo do príncipe o país cresceu a taxas pífias, o que é fato. Acontece que isso apenas faz o tucano pousar numa das pontas da estrela vermelha. São todos iguais. Acresce que o apedeuta não enfrentou nenhuma crise externa de liquidez, como as que encarou o efeagacê. Enfim, estamos fadados à mediocridade.
Reproduzo aqui um mapa surrupiado do blog do Aluizio Amorim (link ao lado).

sábado, fevereiro 25, 2006

Isso não é um país, é uma lata de lixo



Com algum atraso, reproduzo aqui um manifesto de várias entidades contra a prisão arbitrária do professor Nilson Lage, do curso de jornalismo da UFSC, um dos maiores pesquisadores da área de jornalismo do país.
O professor estava dirigindo em uma rua na praia do Campeche, em Florianópolis, onde mora, quando se sentiu mal. Parou o carro e, segundo conta, "apagou". Ele mesmo aponta como possível causa do mal-estar o efeito de remédios que toma diariamente contra a depressão.
O professor diz se lembrar apenas de que acordou apanhando dos policiais, que o levaram para a delegacia e o prenderam sob a acusação de desacato à autoridade.
As marcas da agressão estão na foto, mas não todas. Ser surrado pela polícia enquanto ainda estava inconsciente, aos 69 anos, deixa marcas que uma câmera fotográfica não consegue captar.
A polícia catarinense é a mesma que, na semana anterior, prendera um fotógrafo do Diário Catarinense enquanto fotografava uma manifestação pacífica contra o sistema de transporte da capita catarinense. Detalhe: os manifestantes foram agredidos por meia dúzia de capangas de não se sabe quem. Os trogloditas distribuíram porrada e arrancaram faixas e cartazes da manifestação. Pela ação rápida e violenta, suspeita-se que sejam seguranças particulares que, na sua maioria, são PMs que fazem bicos nas horas de folga para completar o salário ridículo que lhes paga o estado.
Agora perguntem se algum troglodita foi preso? Não, claro que não. Eles só prendem (e espancam) jornalistas - um no exercício da profissão, o outro, um senhor desacordado. COVARDES!
Nos dois casos, parece que vai ficar por isso mesmo: a palavra dos meganhas contra a dos cidadãos a quem os covardes deveriam proteger. E o que dizem as otoridadi? Não vi nenhum pronunciamento do governador, que está mais preocupado em se reeleger. É incrível como eles não pensam em outra coisa, como em administrar. E isso vale para o soneca e para o apedeuta. Santa Catarina já foi um estado diferente, onde as coisas funcionavam um pouquinho melhor do que no resto do bananão. Florianópolis, então... Está largada às traças! Bando de incompetentes, gente muito, mas muito abaixo da crítica está no poder, tanto no estado quanto na capital de todos os catarinenses.
Em tempo: o único jornal que publicou a matéria da agressão ao professor Lage foi O Globo, onde, aliás, ele trabalhou. As fotos daqui foram surrupiadas do blog do Tambosi.
Nilson Lage é o tipo de profissional difícil de se encontrar hoje em dia. Alia erudição com o conhecimento técnico da profissão como ninguém. Ensina como escrever um lide com a mesma naturalidade com que fala de Hegel ou da teoria do caos. Um Nilson Lage em cada redação de jornal, revista e TV e o jornalismo estaria em um outro patamar, neste bananão. Já rodei por várias redações do país, mas nunca encontrei que chegasse nem perto. É um fenômeno que atrasa o desenvolvimento da profissão: a juvenilização. É tarefa hercúlea encontrar profissionais com mais de 50 anos nas redações. Os jornais e revistas preferem os profissionais recém-formados porque são mais baratos e trabalham até 12 horas por dia. Não é raro encontrar editores com 30 anos de idade! Está aqui boa parte da qualidade miserável do jornalismo tupiniquim.
Não quero, com isso, dizer que não se faz o que fizeram com o Nilson só porque é um profissional do mais alto nível; NÃO SE FAZ ISSO COM NINGUÉM! Mas, aqui no bananão, noções de República e direitos civis estão na lata do lixo. Um lixo isso aqui!
Desculpem-me, meus (dois) leitores, pelo texto longo, mas é um desabafo.
Segue o manifesto.


"As entidades e instituições abaixo relacionadas denunciam com veemência a inexplicável e bárbara violência cometida contra o professor universitário, jornalista e escritor Nilson Lage, preso e espancado por policiais militares no último final de semana, em Florianópolis, Santa Catarina.
O professor Nilson Lage sentiu-se mal no último sábado, quando dirigia no bairro onde vive, em Florianópolis, conseguiu parar o carro, mas ficou desacordado. Em vez de receber a ajuda que necessitava naquele momento, foi hostilizado pela Polícia Militar ao ser encontrado dormindo dentro do veículo. Foi algemado, jogado em um camburão e levado a uma delegacia. As marcas em seu corpo – principalmente nos punhos e nos ombros – comprovam a inexplicável violência contra um senhor que neste 2006 completa 70 anos de idade.
Nilson Lage conta com uma trajetória de amplos serviços prestados ao longo dos últimos 50 anos como jornalista, professor e pesquisador do jornalismo. Trabalhou, como profissional jornalista, nas principais redações do Rio de Janeiro, entre as quais as do Diário Carioca, Jornal do Brasil, Última Hora, O Globo, Bloch Editores e TVE. Paralelamente, fez uma brilhante carreira acadêmica como professor da Universidade Federal Fluminense, Universidade Federal do Rio de Janeiro e outras instituições de ensino. Desde 1992, trabalha como professor Titular do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. É autor utilizado como referência em todos os cursos de graduação e citado em dissertações e teses sobre jornalismo, com obras vendidas aos milhares.
Reiterando nosso protesto pela violência do comportamento policial, solicitamos às autoridades competentes a apuração do caso, a punição dos responsáveis, o reparo dos danos morais e a tomada de providências quanto ao preparo das nossas polícias, para que lamentáveis fatos como estes não voltem a ocorrer em Santa Catarina ou em qualquer lugar do país.
São injustificáveis e inaceitáveis espancamentos por quem deve garantir a paz, e o abuso da força por quem, ao tê-la, deve impedir o seu uso. Lembramos que justamente aqueles que detêm o poder devem assegurar tratamento humano e digno a todos os cidadãos."
23 de fevereiro de 2006Federação Nacional dos Jornalistas - FENAJ
Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo – FNPJ
Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo – SBPJor
Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina – SJSC
Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro - SJPMRJ
Associação dos Professores da Universidade Federal de Santa Catarina – APUFSC – Seção Sindical do Andes
Centro Acadêmico Adelmo Genro Filho do Curso de Jornalismo da UFSC
Departamento de Jornalismo da UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Tá liberado!

Policiais de Santa Catarina e região: agora tá tudo liberado! Quando vocês virem um fotógrafo profissional fotografando alguma coisa de que não gostarem, podem impedí-lo de exercer o direito constitucional de bem informar ao público, prendê-lo, descer o cassete no abelhudo e quebrar o equipamento do pobre coitado que nada de mal lhes acontecerá. Muito pelo contrário; o dito cujo é que ainda será demitido por justa causa pela empresa solidária que, momentos antes, o incumbira de fotografar o tal evento que você, policial zeloso das garantias constitucionais, julgou ser puro atrevimento. Dêem uma espiada aqui pra entender a história (http://www.fenaj.org.br/). O Bananão não tem mais jeito, mesmo.

domingo, fevereiro 19, 2006

Messianismo


Uma coisa que sempre me incomodou no pessoal do PT é o messianismo; a crença mesmo de que dispunham da chave milagrosa para tudo resolver. Só eles, os joãzinhos-do-passo-certo, seriam capazes de acabar com as mazelas do país. Parece óbvio que tal forma de pensar - e de agir - pode, facilmente, descambar para o autoritarismo. E não deu outra quando chegaram ao governo. Na cabeça dos messiânicos, a ladroagem é justificada em nome da causa de "mudar o país". "Vamos comprar a colaboração da velha elite que só quer mesmo se locupletar."
Conto um caso que me aconteceu quando ainda morava em Florianópolis (bons tempos aqueles!). Estava eu caminhando pela praça que separava o então palácio do governo da Assembléia Legislativa. Tinha recém-comprado um livro pelo qual procurava há um bom tempo, que me fora indicado pelo mestre Hélio Schuch. Distraído e andando devagar, fui alcançado por uma colega de profissão, assessora de imprensa do PT, com quem costumava conversar freqüentemente. Perguntou-me sobre o que lia tão atentamente. Mostrei: Ensaios Analíticos, cujo autor lhe causou arrepios.
- Má-rio-Hen-ri-que-Si-mon-sen!!!???, perguntou-me abismada. E seguiu a esculachar o pobre.
É essa mentalidade pela qual tenho desprezo. Esse tipo de coisa fez com que jamais fosse filiado ao PT, apesar de ter cometido o erro de votar em seus candidatos. Pensam, todos, conforme a cartilha do partido. Como procuro não seguir discursos prontos, tenho mantido distância dessa gente - para manter o que resta de minha saúde intelectual.
Ah, ia esquecendo: o livro é uma maravilha.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Link não recomendado para presidentes petistas

Caros, segue um link interessantíssimo com textos sobre vários campos da filosofia http://www.cesat.br/biblioteca/web/filosofia.htm . Tem um texto sobre o teorema de Gödel que é uma beleza. Boa leitura.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Discussão de alto nível

Recomendo a visita ao blog do Cláudio Weber Abramo (link ao lado - A coisa aqui tá preta). Uma discussão do mais alto nível sobre religião, misticismo, ciência, etc, originada pela celeuma das charges sobre Maomé. Acresce que concordo com Cláudio, que tem a coragem de expressar pontos de vista que poderiam ser interpretados como politicamente incorretos. Vale a pena.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Votar nunca foi tão difícil quanto em 2006

Os tucanos se recusaram a apear o presidente Lula do poder e agora podem pagar o preço pela displicência. Como divulgou o Valor hoje, pesquisas eleitorais feitas a pedido de dois partidos políticos indicam que Lula bate os tucanos nos dois turnos. É claro que os tucanos quiseram preservar o próprio bico - ou seria o rabo deixado ao longo dos dois mandatos?
O apoio ao presidente sobe nas classes mais pobres e Serra ganha força entre os mais ricos. Pontos a favor do governo são o aumento (mínimo) do salário mínimo, o pacote em favor da construção, a autosuficiência na produção de petróleo e outros menos visíveis para o populacho, como a queda do risco país. Os pontos negativos são do conhecimento de todos: a roubalheira e o crescimento econômico pífio, mesmo com as condições externas as mais favoráveis dos últimos 20 anos.
É o governo da mesmice. Pensando bem, eles até inovaram um pouco na corrupção.
Os tucanos apostaram na estratégia de manter Lula fragilizado para tripudiar sobre ele em outubro. Subiram no salto e acharam que a eleição estava no papo. Ledo engano.
O apoio a Lula vai ganhar força na esteira dos processos de cassação de deputados: os que estão sob risco de serem guilhotinados terão as cabeças poupadas pelos governistas, em troca de apoio eleitoral. Quem duvida que ainda há muita grana escondida por aí para comprar apoio?
Nunca um cenário foi tão propício para o voto nulo. Mas queria mesmo era poder votar em Jefferson Peres, mas é improvável que o senador seja candidato pelo PDT, que tem como nome forte o ex-petista Cristovam Buarque.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Isso é que é transparência!


E depois tem gente que reclama de que os governos não são transparentes. Vejam o que publicou o Diário Oficial do Estado de Santa Catarina, cujo governador é Luiz Henrique da Silveira, ex-presidente nacional do PMDB. A matéria é da repórter Ana Minosso, do Diário Catarinense. O governador tem motivos pra sorrir, já que a máquina da reeleição está preparada.


Secretaria de São Miguel do Oeste divulga texto de campanha no Diário Oficial , em desacordo com a legislação

Um ato complica a definição do que é público do que é partidário na Secretaria de Desenvolvimento Regional de São Miguel do Oeste. Há pouco mais de um mês, o secretário regional José Carlos Zandavali Fiorini (PMDB) chamou os líderes peemedebistas da região do Extremo Oeste para organizarem a campanha eleitoral de 2006 e a reeleição de Luiz Henrique. Dois dias depois, aparece publicado no Diário Oficial (o jornal responsável pelas publicações governamentais) um resumo do encontro político. Em forma de carta, foi endereçada ao governador (veja o conteúdo ao lado) e carrega a assinatura de Juca Fiorini, como é conhecido o secretário regional. A publicação de 35 centímetros, na página 31, vem abaixo de uma publicação oficial da secretaria de São Miguel do Oeste que chama para uma licitação. Na Secretaria Regional de São Miguel do Oeste, a primeira criada por Luiz Henrique, ninguém sabe como a carta foi parar no Diário Oficial. Ninguém sabe também quem vai pagar por ela. A Diretoria de Gestão de Atos Oficiais (ex-imprensa oficial), responsável pelo Diário Oficial, afirma que a carta foi encaminhada pela secretaria regional, mas não houve nenhuma solicitação para desvinculá-la dos anúncios oficiais. Tanto que a nota fiscal para cobrança das despesas de dezembro (aí incluído o valor da carta) foi encaminhada a São Miguel do Oeste em meados de janeiro, pelo Correio. Tudo leva a crer que a carta política seria paga com recursos públicos, junto com as outras publicações. Mais do que publicar no Diário Oficial uma carta política, o gesto demonstra que a hoste peemedebista está se preparando fortemente para a eleição. Com a gestão descentralizada em 30 secretarias regionais pelo Estado, ficará difícil aos órgãos de fiscalização manterem um controle sobre os atos dos correligionários de Luiz Henrique. Governador teria reclamado em 2002 No Extremo Oeste, o arranjo de um grupo de trabalho para o pleito foi feito depois de reclamações do próprio governador. Na eleição de 2002, ele teria constatado "falta de organização" naquela região. A celebração entre os correligionários do PMDB foi feita na noite de 13 de dezembro, no Hotel San Villas, de propriedade de Juca Fiorini, o secretário regional. A coordenação política coube ao ex-prefeito Luiz Basso (PMDB). Basso ocupa o 2º cargo mais importante da Regional de São Miguel do Oeste, o de diretor-geral. Além dele, outros sete nomes figuram no que ele considera o "grupo pensante" da eleição, inclusive o próprio assessor de imprensa da regional, Ivan Anzolin, responsável pela divulgação dos atos do grupo.

(Trechos da carta)
"São Miguel do Oeste, 14 de dezembro de 2005
JOSÉ CARLOS ZANDAVALI FIORINI, SECRETÁRIO DE ESTADO DO DESENVOLVIMENTO REGIONAL - SMO
Sr. Governador
Na data de ontem, reunimo-nos com os Prefeitos e Presidentes do PMDB, dos doze (12) municípios que compõe esta região onde, na oportunidade, elegemos o Coordenador Político Regional para organizar a próxima campanha eleitoral, e o fizemos criando como forma de apoio - um grupo de trabalho, composto por três (03) subcoordenadores, observando - norte, centro e sul da região; um secretário geral; um encarregado de divulgação e dois assessores"
Isso tudo, para que este grupo de forma responsável e organizada, realize as reuniões, os comícios, os encontros e tudo relacionado com a campanha política, não repetindo a falta de organização verificada na última campanha ao Governo do Estado, na região, quando Vossa Excelência constatou as falhas e solicitou providências.
Pretendemos agora, com o nosso incondicional apoio, de logística e operacional, criar as melhores condições para divulgar as mensagens, os atos de governo, mobilizar os companheiros e levar ao conhecimento da população a imagem do governador como pessoa de fácil acesso, atenciosa, responsável, cumpridor de sua palavra, interessado com o desenvolvimento econômico-social e o bem-estar da gente do Extremo Oeste.
(...)
Constatamos de que todos querem demais ter um contato fraterno com o seu companheiro Luiz Henrique, Governador do Estado, não para tratar com ele assuntos administrativos, pedidos, etc... mas, para estreitar, os laços de amizade, de aproximação, e de convivência.
(...)
Na nossa modesta forma de entender e agir, que é do conhecimento de Vossa Excelência, respeito e também comungo, com esta idéia e com este procedimento que vem sendo adotado, de forma a dar preferência ao que é mais importante para o desenvolvimento da gente catarinense, criando condições, com ações rápidas e modernas de administração - afastando-se da política "velha", "velhaca", como Vossa Excelência tem dito.
Nada mais tendo para o momento, fico no aguardo de um posicionamento e aproveito o ensejo para lhe enviar meu cordial abraço.
Atenciosamente, JUCA FIORINI"
Publicada no Diário Oficial de 15 de dezembro de 2005.


Sem comentários!

domingo, fevereiro 05, 2006

Marconi e o celular


Continuemos na seara da história da ciência, desta vez sem nenhuma menção aos nossos infortúnios políticos atuais. A seguir, um trecho de um entrevista de Guglielmo Marconi à Kate Carew, do The New York Tribune, em abril de 1912. É uma das muitas que constam do excelente A Arte da Entrevista, organizado por Fábio Altman. No começo da segunda década do século XX, Marconi antecipa uma das tecnologias mais usadas neste começo de século XXI.

- O senhor acha que está chegando o momento em que dispensaremos os métodos comuns de comunicações, tais como telefones e cartas?
O senhor Marconi com certeza é muito perspicaz. Pude perceber isso muito bem
- Certamente que sim! Seremos capazes de sintonizar nossas mentes. Tenho certeza. Já fazemos isso agora, até certo ponto, mas algum dia, quando for a um restaurante e o garçom, lhe perguntar: "Sozinha?" Você dirá: "Ah, não, eu espero alguém". Você enviará uma onda ou duas ondas e logo este certo alguém irá aparecer.
Ele riu da expressão de espanto em meu rosto. Por isso contive o meu deleite:
- E se outro alguém estiver me chamando ao mesmo tempo?
- Ah, mas você pode receber e transmitir simultaneamente, você sabe - respondeu ainda mais divertido.

O livro é imperdível! Histórias saborosas e entrevistas do tipo que não se vê atualmente, infelizmente.

[Lá se vai um dos últimos do estoque de Dona Flor]

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Simplício às avessas


Simplício é o personagem criado por Galileu Galilei para defender o geocentrismo ptolomaico-aristotélico no célebre Diálogo sobre Duas Novas Ciências. Argumentava com base nas evidências do sentido, no que viam os olhos, contra as evidências "científicas" apresentadas por Salviati e Sagredo. Cá pra nós, seriam os deputados e senadores governistas um tipo de Simplício às avessas - olham para o que é dado, para o que está claro, para os fatos, enfim, e não admitem sua existência?

[Fumando um belíssimo Dona Flor Pirâmide - porque não sou o Delúbio, cuja conta bancária permite fumar Cohibas autênticos]