sábado, outubro 21, 2006

Jornalismo oficial

A respeito da polêmica sobre a divulgação das fotos da dinheirama do dossiêgate, tenho lido muitos coleguinhas (entre eles, gente boa) criticar com veemência a postura dos jornais e TVs que as publicaram. Para mim, alguns textos não passam de defesa do governo travestida de crítica da imprensa. A discussão está toda lá no Observatório da Imprensa.

Surrupiei do blog do meu amigo Marcelo Soares alguns trechos com os quais concordo integralmente.

"Ilimar Franco (O Globo), em seu blog:
"Eu publicaria a foto do dinheiro. É de interesse jornalístico, ponto. Protegeria e ocultaria minha fonte. É assim que funciona a apuração jornalística. Se um jornalista disser para você o contrário pode ter certeza que estás diante de um mentiroso. A tentativa de criminalizar a apuração jornalística é um erro grave. Tem muita gente boa fazendo isso sem pensar nas consequências para o nosso árduo trabalho diário. É o seguinte: os jornalistas que conseguiram as fotos não revelaram a fonte. Tentaram proteger a fonte. Deviam tê-lo feito? Sim. Deviam fazer como a reportagem de Carta Capital, que conta uma história sem citar uma única fonte sequer. O mesmo método dos três delegados da PF da Veja, no governo Lula, ou das quatro fontes do mercado sobre corrupção no Banco Central, no governo Fernando Henrique. É assim mesmo. São histórias sensacionais, que denigrem instituições e lançam suspeitas sobre pessoas, diretorias ou corporações inteiras, mas sem um único patriota disposto a denunciar publicamente."

Paulo Moreira Leite (Estadão), em seu blog:
"Acho errado todo esforço para mudar de assunto no meio da investigação sobre a operação tabajara. A operação envolve uma ação condenável de manipulação eleitoral, que deve ser investigada a fundo. Todo esforço para demonstrar que o PT foi vítima de uma conspiração adversária perde o sentido quando se recorda que petistas de primeiro escalão montaram a operação suicida, que impediu a vitória de Lula no primeiro turno. Ou seja: mesmo que se demonstre que o lance original da operação tabajara tenha sido dado por um cérebro ligado ao PSDB, a CIA ou a quem quer seu seja, o máximo que essa informação revela diz respeito à qualificação e ao vergonhoso despreparo de determinados auxiliares de confiança Lula. Pode-se dar muitas voltas, mas a responsabilidade sempre retornará a este círculo. Outra coisa é o papel do delegado Edmilson Bruno. Não acho que caiba a um funcionário público esconder uma informação relevante da população. Sempre fui a favor da divulgação das fotos do dinheiro, porque essa é uma tradição do jornalismo brasileiro, seja em casos de apreensões de tijolos de maconha, de sacos de cocaína, de armas contrabandeadas. Não vejo por que mudar de hábitos quando eles iriam prejudicar o governo. Isso seria manipulação. Acho que também é manipulação um delegado definir quando essa informação será divulgada – em prazos que têm uma ligação direta com a votação para presidente da república."

Ali Kamel (TV Globo), no Observatório da Imprensa:
"Agiram mal a TV Globo e toda a imprensa ao divulgar as fotos? De maneira alguma, elas eram de extremo interesse público. Agiu mal a TV Globo ao preservar a fonte? Também não, porque ao mesmo tempo em que preservou a fonte, não fez, em nenhum momento, o que ela pediu: alegar que os CDs haviam sido furtados. Desde o primeiro instante a TV Globo disse a seus telespectadores que conseguira os CDs de uma fonte graduada da Polícia Federal, com isso deixando claro que se tratava de alguém da hierarquia da polícia. Em nenhum momento dissemos que os CDs por nós obtidos eram fruto de furto ou roubo. O que mais impressiona é a parte da reportagem em que se destaca a frase do delegado: "Tem de sair hoje à noite na TV. Tem de sair no Jornal Nacional". Trata-se de um caso de omissão cujo objetivo pode ter sido dar a entender que a intenção do delegado era vazar as fotos prioritariamente para a TV Globo. Nada mais falso. Conversando com quatro jornalistas, nenhum deles da TV Globo, o delegado, a certa altura, pergunta para qual televisão ele deve divulgar, alegando que precisa que as fotos saiam numa TV. Os repórteres, nenhum deles da TV Globo, sugerem a Globo e o SBT. O delegado pergunta então se há alguém da Globo nas proximidades, e os repórteres apontam para Rodrigo Bocardi, repórter do Jornal Nacional, que estava de plantão na Polícia Federal. Outro repórter do grupo acrescenta que também está na PF um repórter da TV Bandeirantes, a quem classifica de gente finíssima. O delegado alega que não tem CDs para todos, mas os repórteres asseguram a ele que tirarão cópias e farão a distribuição aos repórteres de TV."

3 comentários:

Orlando Tambosi disse...

E bota oficial nisso! Mas, que esperar da "idiotia latino-americana"?

Anônimo disse...

Depois os outros é que são parciais?
Entendo não quereres colocar teu nome, te manteres no anonimato. Os três veículos que colocas são exatamente os que participaram da farsa.

Agora, já que ainda entendeste qual é a questão: o problema não foi mostrar as fotos, mas não mostrar os dois lados. Cadê as imagens do dossiê?
Vou te dar uma dica: entra no youtube.
Ai, que canseira!

ph disse...

filhote, a casa caiu. O próprio Mino Carta entregou o jogo. A matéria de capa deles foi feita com base em uma gravação pela metade tirada do blog do Azenha - hahahaha. Uma piada! O negócio todo estava tão armado com a Globo que nem sequer havia um repórter da emissora na hora em que o delegado entregou o cd para a imprensa. Youtube? Faça-me o favor. Isso é coisa de petralha, mesmo.