quarta-feira, abril 02, 2008

A lucidez contra o senso comum

Como é bom ler um texto inteligente e bem escrito. Hélio Schwartsman lembra que o Tibete nunca foi um país independente, com exceção de um pequeno período quando a China estava ocupada demais com seus problemas internos, na primeira metade do século XX.

Com muito mais propriedade e elegância, Hélio diz o mesmo que eu penso: o problema não é a "opressão" da China contra os tibetanos, mas a opressão da China contra todos os chineses. Não estou nem aí pros tibetanos. Aliás, como bem lembrou o Hélio, antes do recente domínio chinês, eles viviam numa teocracia absolutista - argh! Não gosto de religião, muito menos de Estado religioso.

O problema é a ditadura chinesa que oprime mais de um bilhão de pessoas - defendida por muitos esquerdopatas tupiniquins.

E o melhor do texto do Hélio é alertar para o nosso clichê de sempre torcer para o mais fraco.

3 comentários:

Anônimo disse...

PH, o que me faz repudiar o domínio chinês sobre o Tibete não é torcer pelo mais fraco, esquerdopatia (você sabe bem que não padeço deste mal), etc. O que não tem cabimento é um país simplesmente, pela força, subjugar outro. Isso vale para qualquer um, seja chinês, inglês, francês ou norte-americano (me recuso a dizer estadunidense). Ah, e se o problema é a opressão da ditadura chinesa sobre mais de um bilhão de chineses, imagine a excrescência que é a opressão da ditadura sobre cidadãos que nem chineses são?
Abraços, meu amigo.
Marcelo Santos

ph disse...

Marcelo, tendo a concordar. Mas o que o Hélio aponta é justamente isto: o status de país independente do Tibete pode muito bem ser questionado. Aquilo lá passou muito mais tempo sob o domínio chinês do que independente. Tudo bem, isso também pode ser questionado, principalmente se lembrarmos do movimento de independência em vários países da Europa recentemente. Eu tendo a concordar com a saída dos chineses do Tibete, mas não por achar que os "tibentanços" são santinhos do pau oco. Isso é uma romantização de ocidentais deslumbrados com o "tá lá na lama".

Nemerson Lavoura disse...

Huummm, Ph, sei não... Acho que os argumentos do Hélio são perigosamente parecidos com os dos chefões do PC Chinês - mesmo que postos sob uma forma bem mais elegante. O Dalai Lama é medieval (por isso a ocupação chinesa é um avanço, dizem os comunas cheneses), e o Tibet nunca foi independente (por isso não há motivo para se separar da China).
Começando pelo final, não vejo qualquer problema no fato de uma região nunca ter sido independente e passar a querer sê-lo. Se esse é realmente um desejo das pessoas, qual é o problema? Por nunca ter sido independente (o que nem é o caso do Tibet), um país não pode ser independente? Não é esquisito?
Nós deveríamos ser uma colônia de Portugal até hoje... Além disso, o PCC vem há anos praticando uma espécie de "genocídio light", deslocando milhares de chineses da etnia Han para o Tibet para "diluir" a etnia e a cultura tibetanas. Ou seja, o PCC sabe que há motivos para a independência.
Por fim, o argumento de que o Tibete era uma teocracia absolutista (e era mesmo, sem dúvida. Eu não tenho nenhuma simpatia especial pelo tal Dalai Lama)antes da ocupação chinesa tampouco faz sentido: será que os tibetanos estão pedindo o retorno ao mesmo sistema vigente na década de 40? E se quiser a ditadura do Dalai (o que eu não acredito), isso é lá motivo para preferir a tirania do PCC? Ao emnos o Dalai não vai querer exterminar a cultura tibetana.
Enfim, é claro que o problema principal é a opressão da ditadura chinesa sobre todos os chineses. Perfeito. Mas isso não significa, em absoluto, que a briga dos tibetanos pela independência (ou mesmo autonomia) seja desimportante ou, pior ainda, "errada". Cuidado para não misturar alhos com bugalhos.
Um grande abraço (e desculpe-me pelo longo comentário).
Nemerson